Uma pesquisa da Fundação Victor Civita de 2011 revelou que 42% dos diretores de escolas públicas brasileiras são escolhidos por influência política. É uma pena. Em Nova York, o trabalho da organização Leadership Academy (Academia de Liderança) aponta que os maiores avanços no desempenho escolar dos alunos são obtidos com diretores muito bem treinados para a função, profissionais que, além de bons gestores, conhecem o conteúdo programático de suas unidades de ensino. Criada em 2003, a instituição ajudou a formar um em cada seis diretores de escolas públicas da cidade americana, que estão concentrados principalmente em áreas de maior vulnerabilidade, como o Bronx. "Liderança é a alavanca que impulsiona a mudança em uma escola. O diretor define a melhoria e alinha tempo, dinheiro e recursos”, afirma Irma Zardoya, presidente da Academia. Irma, que participa de um ciclo de debates no Brasil, na próxima segunda-feira, promovido pela Fundação Itaú Social, concedeu a seguinte entrevista ao site de VEJA:
Qual o contexto que permitiu a criação da Academia de Liderança? Há nove anos, Michael Bloomberg, prefeito de Nova York, e Joel Klein, chefe do Departamento de Educação da cidade, perceberam que havia a necessidade de líderes escolares apaixonados, dedicados e inovadores. Além disso, muitos diretores estavam para se aposentar e não havia líderes disponíveis para essas escolas. Foi quando a comunidade empresarial e as principais organizações filantrópicas se uniram e contribuíram para o desenvolvimento da Academia de Liderança de Nova York, com um investimento de 84 milhões de dólares.
Como se mantêm? Somos uma organização sem fins lucrativos que presta serviço aos sistemas de ensino e recebe por isso. Também recebemos dinheiro de algumas fundações e do governo.
Como é a seleção dos possíveis diretores? O que procuram? Qualquer pessoa que queira fazer parte do nosso processo seletivo precisa ter, no mínimo, três anos de experiência com ensino. É o que estado exige. Há uma rigorosa ficha de seleção a ser preenchida. Os aprovados são convocados para uma dinâmica em grupo, na qual são colocados de frente a um problema e questionados - como grupo - sobre como lidar com ele. Precisamos ter certeza de que o candidato sabe escrever e se expressar bem, é um eficaz solucionador de problemas e tem habilidade para lidar com as pessoas. Depois, os melhores são convidados para uma entrevista individual, em que devem apresentar trabalhos acadêmicos, e são questionados sobre questões pedagógicas. Temos um guia que orienta os nossos processos seletivos e aponta o que precisamos considerar nos candidatos. Os principais pontos são: comportamento pessoal, responsabilidade, resiliência, liderança, capacidade de se comunicar, de resolver problemas e de supervisionar os funcionários; cultura, gestão de tempo e tecnologia.
Como é o treinamento dado pela academia? Oferecemos um programa de 18 meses, dividido em três fases. A primeira expõe os participantes a rigorosas simulações do que é ser um diretor; a segunda é uma fase de residência em que ele fica em uma escola por 10 meses e convive duas vezes por semana com um diretor para aprofundar seu conhecimento em campo. Por fim, a terceira etapa é customizada para atender às necessidades da escola e do profissional para efetuar a transição de poder.
Como uma boa liderança pode mudar a realidade de uma escola? A liderança é a alavanca que impulsiona a mudança em uma escola. O diretor define a melhoria e alinha tempo, dinheiro e recursos para que seu objetivo seja atingido. Um estudo do Instituto de Política Educacional e Social, da Universidade de Nova York, mostra que os formados pela academia estão atuando em escolas que têm mais desafios e ainda assim conseguiram que os alunos tivessem um aprendizado mais acelerado em língua inglesa e matemática. Os diretores têm a oportunidade de implementar sistemas de ensino com foco no aprendizado dos alunos, o que inclui: selecionar professores altamente qualificados, desenvolver programas curriculares de ensino e avaliação que se alinhem com as necessidades do estudante, e dar suporte para as relações de colaboração entre os funcionários e entre eles e os alunos.
Como os diretores devem colaborar com os professores? O diretor deve guiar o professor na tomada de decisões curriculares e de ensino. É fundamental que dê aos profissionais a possiblidade de trabalharem juntos para resolverem os problemas de aprendizagem dos alunos. Os professores devem avaliar juntos o que e como estão ensinando, visitar uns aos outros nas salas de aula e trocar informações. Um diretor eficaz é aquele que fornece ‘feedback’ aos professores e os orienta sobre o seu trabalho e a melhor forma de melhorá-lo. É muito importante para o líder gerir a escola bem e configurar os sistemas e estruturas que permitirão que ela seja um lugar seguro e bem organizado, propício à aprendizagem.
É possível criar um bom líder ou algumas pessoas simplesmente não têm as características necessárias? Nós, enquanto reconhecemos que algumas habilidades podem ser desenvolvidas, também procuramos características específicas nos candidatos. São elas: integridade profissional, compromisso de diminuir as lacunas de aprendizado e trabalhar com estudantes de áreas mais vulneráveis, conhecimento pedagógico, resiliência (capacidade para se recuperar de derrotas e seguir em frente) e postura aberta ao aprendizado. Já as habilidades que podem ser aprimoradas na academia são: supervisão pedagógica, comunicação, resolução de problemas, análise de dados e planejamento estratégico.
Você acredita que é possível implantar um sistema similar ao da cidade de Nova York em outros países, como o Brasil? Os sistemas de ensino devem primeiro reconhecer a importância da liderança, enxergá-la como uma forte alavanca para impulsionar e melhorar o aprendizado dos estudantes. Depois, devem identificar, treinar e dar suporte a estes líderes para que tenham condições de melhorar as escolas em que atuam. Cada sistema de ensino é único e deve identificar seus próprios padrões de liderança. Com isso, serão capazes de enfrentar o contexto e as necessidades locais.
http://veja.abril.com.br/
Fonte: Veja.com
31 de mai. de 2012
OS SALÁRIOS DOS PROFESSORES
Depois de terem recebido reajustes acima da média na última década, os Professores da Educação básica continuam com os salários mais baixos do País, entre os profissionais de nível superior. São cerca de 2 milhões de profissionais que atendem mais de 50 milhões de crianças e jovens.
Em 2000, a renda média de um Docente do Ensino fundamental equivalia a 49% do que ganhavam os demais trabalhadores com nível superior. Em 2010, a relação aumentou para 59%. No Ensino médio, a variação pulou de 60% para 72%. Em média, um médico e um engenheiro civil receberam R$ 7.150 e R$ 6.015 mensais, na última década. Os médicos e engenheiros também tiveram a menor taxa de desemprego no período - 0,7% e 1,7%, respectivamente.
Já o salário médio dos Docentes da Educação básica ficou em torno de R$ 1.878 e a taxa de desemprego foi de 3%, entre 2000 e 2010. Em matéria de vencimentos, os Professores estão atrás de bacharéis em serviço social, enfermagem e atenção primária e viagens, turismo e lazer. Os números foram extraídos do Censo do IBGE e as tabulações foram feitas pelo jornal O Globo.
Os Docentes do Distrito Federal recebem os maiores salários da categoria no Brasil - R$ 4.367 no Ensino médio e R$ 3.412 no Ensino fundamental. Os menores salários são pagos pelo magistério público dos Estados do Nordeste. No Ensino médio, o salário mais baixo - R$ 1.598 - é o do magistério público paraibano. No Ensino fundamental, o salário mais baixo - R$ 1.189 - é pago pelo Estado da Bahia.
As consequências do aviltamento salarial do Professorado são a falta de motivação, a baixa produtividade e a pequena atratividade da profissão. Por causa dos baixos salários, a carreira Docente acaba atraindo, salvo exceções, apenas quem não obteve nota suficiente para ingressar nas faculdades onde os exames vestibulares são bastante disputados. Sem salário digno, além disso, o Docente não se sente estimulado a se requalificar, a buscar novas técnicas pedagógicas e a ascender na carreira - pelo contrário, a categoria é conhecida pelo alto grau de absenteísmo e de afastamento por licenças médicas.
A solução para o problema é cara e complexa - e o retorno, em matéria de qualidade de Ensino, é obtido apenas a médio e a longo prazos. Estados e municípios, aos quais estão subordinadas as redes de Ensino fundamental e médio, alegam que não dispõem de recursos próprios para aumentar os salários do magistério público. E, para pressionar a União a aumentar os repasses, até hoje muitos prefeitos e governadores continuam descumprindo a lei que estabeleceu o piso salarial unificado, em 2008. Só em 2011, isso provocou 17 greves nas redes públicas estaduais de Educação básica.
Além disso, para melhorar a qualidade do Ensino e atrair profissionais mais qualificados para o magistério não basta apenas aumentar os salários. Também é necessário impor metas e cobrar maior produtividade - duas exigências que os líderes sindicais do Professorado resistem a acatar. "Sem salário, não há a menor possibilidade de qualidade. Agora, é claro que é preciso muito mais do que isso, como carreira, formação e gestão", diz o presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação, Roberto Franklin Leão. "Não dá para imaginar que, dobrando o salário do Professor, ele vai dobrar o aprendizado dos Alunos. É preciso melhorar os salários para que os Alunos aprendam mais, mas o profissional tem que ser mais cobrado por resultados", afirma a diretora executiva do Movimento Todos Pela Educação, Priscila Cruz.
Na última década, as autoridades educacionais agitaram bandeiras mais vistosas do que eficazes. Elas prometeram distribuir computadores a Alunos e tablets a Docentes, mas não cuidaram seriamente do que é mais importante - pagar melhores salários para os Professores e estimulá-los a dar conta de suas funções elementares, em matéria de Ensino de português, matemática e ciências. Enquanto essas tarefas estiverem negligenciadas, o sistema educacional brasileiro continuará longe de qualquer resultado minimamente aceitável, como atestam os indicadores nacionais e internacionais de avaliação Escolar.
http://www.estadao.com.br/
Fonte: O Estado de S. Paulo
Em 2000, a renda média de um Docente do Ensino fundamental equivalia a 49% do que ganhavam os demais trabalhadores com nível superior. Em 2010, a relação aumentou para 59%. No Ensino médio, a variação pulou de 60% para 72%. Em média, um médico e um engenheiro civil receberam R$ 7.150 e R$ 6.015 mensais, na última década. Os médicos e engenheiros também tiveram a menor taxa de desemprego no período - 0,7% e 1,7%, respectivamente.
Já o salário médio dos Docentes da Educação básica ficou em torno de R$ 1.878 e a taxa de desemprego foi de 3%, entre 2000 e 2010. Em matéria de vencimentos, os Professores estão atrás de bacharéis em serviço social, enfermagem e atenção primária e viagens, turismo e lazer. Os números foram extraídos do Censo do IBGE e as tabulações foram feitas pelo jornal O Globo.
Os Docentes do Distrito Federal recebem os maiores salários da categoria no Brasil - R$ 4.367 no Ensino médio e R$ 3.412 no Ensino fundamental. Os menores salários são pagos pelo magistério público dos Estados do Nordeste. No Ensino médio, o salário mais baixo - R$ 1.598 - é o do magistério público paraibano. No Ensino fundamental, o salário mais baixo - R$ 1.189 - é pago pelo Estado da Bahia.
As consequências do aviltamento salarial do Professorado são a falta de motivação, a baixa produtividade e a pequena atratividade da profissão. Por causa dos baixos salários, a carreira Docente acaba atraindo, salvo exceções, apenas quem não obteve nota suficiente para ingressar nas faculdades onde os exames vestibulares são bastante disputados. Sem salário digno, além disso, o Docente não se sente estimulado a se requalificar, a buscar novas técnicas pedagógicas e a ascender na carreira - pelo contrário, a categoria é conhecida pelo alto grau de absenteísmo e de afastamento por licenças médicas.
A solução para o problema é cara e complexa - e o retorno, em matéria de qualidade de Ensino, é obtido apenas a médio e a longo prazos. Estados e municípios, aos quais estão subordinadas as redes de Ensino fundamental e médio, alegam que não dispõem de recursos próprios para aumentar os salários do magistério público. E, para pressionar a União a aumentar os repasses, até hoje muitos prefeitos e governadores continuam descumprindo a lei que estabeleceu o piso salarial unificado, em 2008. Só em 2011, isso provocou 17 greves nas redes públicas estaduais de Educação básica.
Além disso, para melhorar a qualidade do Ensino e atrair profissionais mais qualificados para o magistério não basta apenas aumentar os salários. Também é necessário impor metas e cobrar maior produtividade - duas exigências que os líderes sindicais do Professorado resistem a acatar. "Sem salário, não há a menor possibilidade de qualidade. Agora, é claro que é preciso muito mais do que isso, como carreira, formação e gestão", diz o presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação, Roberto Franklin Leão. "Não dá para imaginar que, dobrando o salário do Professor, ele vai dobrar o aprendizado dos Alunos. É preciso melhorar os salários para que os Alunos aprendam mais, mas o profissional tem que ser mais cobrado por resultados", afirma a diretora executiva do Movimento Todos Pela Educação, Priscila Cruz.
Na última década, as autoridades educacionais agitaram bandeiras mais vistosas do que eficazes. Elas prometeram distribuir computadores a Alunos e tablets a Docentes, mas não cuidaram seriamente do que é mais importante - pagar melhores salários para os Professores e estimulá-los a dar conta de suas funções elementares, em matéria de Ensino de português, matemática e ciências. Enquanto essas tarefas estiverem negligenciadas, o sistema educacional brasileiro continuará longe de qualquer resultado minimamente aceitável, como atestam os indicadores nacionais e internacionais de avaliação Escolar.
http://www.estadao.com.br/
Fonte: O Estado de S. Paulo
Sistema irracional
Segundo declaração do Deputado Rogério Marinho no PSDB na Câmara, em 31 de maio de 2012, ensino médio precisa de reformulação para atrair jovens
O ensino médio no Brasil não atrai os jovens nem prepara para o ingresso na universidade ou no mercado de trabalho, na avaliação do deputado Rogério Marinho (RN). O tucano é integrante da comissão que reformula o Ensino Médio na Câmara. Essa etapa do sistema educacional apresenta os piores indicadores de qualidade e evasão.
Segundo o deputado, o atual modelo não desperta interesse do jovem em prosseguir os estudos. “Hoje é um ensino desinteressante, irracional, com um currículo enciclopédico e pouca relação com a realidade objetiva das pessoas. O resultado, além de prepararmos mal os jovens para o mercado e a universidade, é uma imensa evasão e um grande número de jovens que repetem o ano, que ficam pelo caminho”, disse.
Na comissão, Marinho vai defender a diminuição do número de matérias. Assim, a disciplina seria opcional, feita conforme o interesse do aluno. Segundo ele, essa liberdade da grade curricular será benéfica aos estudantes. “A flexibilização vai permitir inclusive currículos menores. Se o estudante pretende ingressar no mercado de trabalho, em vez de passar três anos no colégio, por que não um curso de um ano e meio, com as matérias elementares. E o ensino técnico ou profissionalizante na carreira ou na atividade econômica que ele pretende desempenhar. Isso sempre com a possibilidade de levar em consideração o que o mercado demanda naquele momento”, finalizou.
A comissão, instalada na semana passada, terá a função de promover estudos e apresentar propostas para reformular essa etapa de ensino.
(Reportagem: Artur Filho/ Foto: Alexssandro Loyola/ Áudio: Elyvio Blower)
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| Dep. Rogério Marinho (PSDB/RN) |
O ensino médio no Brasil não atrai os jovens nem prepara para o ingresso na universidade ou no mercado de trabalho, na avaliação do deputado Rogério Marinho (RN). O tucano é integrante da comissão que reformula o Ensino Médio na Câmara. Essa etapa do sistema educacional apresenta os piores indicadores de qualidade e evasão.
Segundo o deputado, o atual modelo não desperta interesse do jovem em prosseguir os estudos. “Hoje é um ensino desinteressante, irracional, com um currículo enciclopédico e pouca relação com a realidade objetiva das pessoas. O resultado, além de prepararmos mal os jovens para o mercado e a universidade, é uma imensa evasão e um grande número de jovens que repetem o ano, que ficam pelo caminho”, disse.
Na comissão, Marinho vai defender a diminuição do número de matérias. Assim, a disciplina seria opcional, feita conforme o interesse do aluno. Segundo ele, essa liberdade da grade curricular será benéfica aos estudantes. “A flexibilização vai permitir inclusive currículos menores. Se o estudante pretende ingressar no mercado de trabalho, em vez de passar três anos no colégio, por que não um curso de um ano e meio, com as matérias elementares. E o ensino técnico ou profissionalizante na carreira ou na atividade econômica que ele pretende desempenhar. Isso sempre com a possibilidade de levar em consideração o que o mercado demanda naquele momento”, finalizou.
A comissão, instalada na semana passada, terá a função de promover estudos e apresentar propostas para reformular essa etapa de ensino.
(Reportagem: Artur Filho/ Foto: Alexssandro Loyola/ Áudio: Elyvio Blower)
30 de mai. de 2012
O FRACASSO DO ENSINO PÚBLICO NA CALADA DA NOITE
Os olhos marejados da Professora de sociologia Maria Teresa Mendes Ciambarella, de 60 anos, respondem bem a uma pergunta sobre o que pensa a respeito de lecionar no Colégio Estadual Professor Augusto Motta, na Penha Circular, Zona Norte do Rio. A Escola é uma das 104 da rede pública carioca que, no ano passado, não conseguiram aprovar de ano sequer a metade de seus Alunos matriculados no Ensino médio, segundo levantamento feito pelo GLOBO com base em dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep). O número corresponde a pouco mais de um terço (37%) das 283 unidades da cidade.
- Dou aulas há 38 anos na rede pública e o que vejo aqui é um retrato do abandono pedagógico. Não há respeito com o Professor - define Maria Teresa.
O Colégio Professor Augusto Motta foi o terceiro que menos aprovou no ano passado na capital fluminense: apenas 25,7% dos Alunos matriculados no Ensino médio passaram de ano, de acordo com os dados do Inep. No 1 ano, por exemplo, o número consegue ser ainda mais assustador: só 18,7% conseguiram a aprovação. A unidade da Penha Circular retrata bem aquele que parece ser o grande calcanhar de Aquiles da rede estadual: Escolas que funcionam à noite e nem prédio próprio têm. Ocupam instalações da prefeitura do Rio, projetadas para atender aos Alunos de Ensino fundamental.
- Hoje (quarta-feira passada), fiz metade do meu planejamento de aula no banheiro e metade no refeitório porque a gente não tem sala de Professor - completa a Docente do Professor Augusto Motta.
Das 20 piores, 19 são noturnas
Das 104 Escolas estaduais do Rio que não conseguem aprovar metade de seus Alunos do Ensino médio, 70 (67%) funcionam no período noturno em prédios que são do município. Das 20 piores no ano passado, apenas uma não se enquadra nesse perfil.
- É um problema histórico que temos na Região Metropolitana. Nessas Escolas à noite, os Alunos geralmente aparecem só em época de provas. A partir do início de setembro, de outubro, quando vai chegando a época de festas, há um esvaziamento ainda mais perigoso de jovens que saem para trabalhar e não voltam mais. É uma luta diária conseguir manter esse estudante dentro da Escola - comenta Alan Figueiredo Marques, diretor administrativo da Regional da Zona Norte do Rio, da Secretaria estadual de Educação.
Na última quarta-feira, quando o GLOBO esteve na Professor Augusto Motta, não se ouvia o burburinho típico de uma Escola cheia. Por motivos de saúde, quatro Professores haviam faltado. O turno deveria começar às 18h e terminar depois de 22h30m para suas nove turmas de Ensino médio regular. Mas poucos estudantes resistiram nas salas. Às 21h, depois que foi servido o jantar, praticamente ninguém ficou.
- São Alunos muito carentes, de situação econômica muito desfavorável. Ano passado, não tínhamos comida quente para oferecer. Essa mudança já está melhorando o índice de comparecimento. Também estamos fazendo um trabalho de visitação nas casas para saber os motivos da evasão - defende-se a diretora Maria José da Silva Bezerra Sá, que na quarta chegou à Escola pouco depois de 20h.
Na Escola que teve o pior índice de aprovação no Rio (15,2%), o Colégio Estadual Marechal Estevão Leitão de Carvalho, no Engenho da Rainha, nem o jantar serve de motivação. Como a unidade não tem uma dispensa adequada para o depósito de alimentos, não há como fornecer a merenda quente. Na última terça-feira, biscoitos e laranjas eram o que havia no cardápio. A direção da Escola espera concluir nos próximos meses uma reforma para começar a fornecer uma alimentação mais consistente.
- Aqui, a gente não tem nada de muito atrativo. Contamos apenas com a vontade do Aluno de estudar - admite a diretora da Escola, Rose Léa Silva Dias.
A unidade é nova, e os 15,2% são referentes à única turma de Ensino médio regular que o colégio possuía em 2011. A diretora questiona o número. Diz que, de 50 matriculados no início do ano, 11 (22%) foram aprovados:
- Estamos cercados por oito comunidades que não foram pacificadas. Já houve um dia, no ano passado, em que olhamos para o muro da Escola e havia aquela luz vermelha, da mira laser de uma arma. O Caveirão (blindado da PM) já ficou várias vezes aqui na porta. Nesses dias, é ainda mais difícil ter Alunos que venham - ela diz.
A diretora admite que muitos jovens só frequentam a Escola nas duas primeiras semanas ou no primeiro mês de aula:
- Há aqueles que só querem pegar o RioCard (gratuidade no transporte).
Na última terça-feira, dois ex-Alunos do 1 ano do Ensino médio em 2011 estavam na Marechal Estevão Leitão de Carvalho. Novamente, numa sala de 1 ano. Com cara de menina, Andressa Francisco da Silva, de 18 anos, conta que decidiu largar o emprego para se dedicar aos estudos. A decisão, no entanto, ainda é motivo de forte discussão familiar.
- Estou conversando com o meu marido para ver o que a gente faz. No primeiro bimestre desse ano, tive de novo notas ruins porque estava trabalhando - comenta a jovem que já é mãe de uma filha de 2 anos de idade.
Um dos Professores de Andressa é o também jovem André Magliari, de 25 anos. Lá, ele leciona português.
- É difícil porque a maioria dos Alunos trabalha. Atividades para casa, por exemplo, tenho que evitar. Mas ainda acredito que é possível - diz o Professor.
Normalistas no topo do ranking
Com 94,8%, o Colégio Estadual José Leite Lopes, na Tijuca, foi o que mais aprovou na rede estadual no ano passado. A Escola ganhou o nome de Núcleo Avançado em Educação (Nave), após o governo estabelecer uma parceria com a operadora de telefonia Oi. Em segundo lugar (94,3%), ficou o Colégio Erich Walter Heine, em Santa Cruz, construído com o apoio da siderúrgica ThyssenKrupp. Entre as de melhor desempenho (87,2% de aprovação), uma boa surpresa foi o Colégio Estadual Professor José Accioli, em Marechal Hermes. A unidade oferece o curso normal médio, de formação de Docentes. Sem grandes fórmulas mágicas, seu forte está mesmo nos profissionais.
- Acho que nosso grande diferencial é o Professor. E uma gestão participativa - destaca a Professora Kátia Gil.
Também Professora da Escola, Ana Maria Barros da Silva completa:
- Ninguém vem para cá só para cumprir horário.
O Colégio Professor José Accioli funciona em horário integral já que recentemente o Ensino normal de quatro anos foi reduzido para três. Também tem suas dificuldades, já que somente nas próximas semanas terá uma cozinha pronta para servir refeições. O improviso das quentinhas no micro-ondas, porém, não tem prejudicado o desempenho dos Alunos. Na verdade, das alunas, com poucas exceções.
- Temos alguns meninos, sim. E muito bons! - garante a diretora Maria Eduarda Marques Rodrigues.
Para tentar fazer com que casos como o do Colégio Professor José Accioli não sejam raridade, a secretaria estadual de Educação promove um processo de reformulação que passa pela mudança de gestores - foram trocados cerca de 500 diretores e adjuntos em 2011 -, além da própria reavaliação do compartilhamento de prédios com a prefeitura. Um novo contrato de parceria já foi assinado para que o uso das instalações seja permitido integralmente.
- Também estamos levantando imóveis para a criação de novas unidades. Este ano, estamos preparando uma nova metodologia de Educação de Jovens e Adultos (antigo supletivo). Queremos que seja atraente para o Aluno que estuda à noite, com qualidade e flexibilidade - afirma o subsecretário Antônio Neto.
Em Nova York, uma solução radical
O que fazer com Escolas com altos índices de fracasso Escolar? Em Nova York, a solução adotada pelo ex-prefeito Michael Bloomberg quando assumiu seu mandato em 2002 e iniciou uma ousada reforma educacional, foi radical: fechá-las.
Quase cem unidades da rede de Nova York já tiveram esse destino por terem registrado sucessivos resultados ruins em avaliações feitas pela prefeitura. Antes de decretar o fechamento, no entanto, a secretaria de Educação tenta oferecer apoio para a equipe reverter a situação.
Quando não conseguem, o destino dessas Escolas com altos índices de evasão e baixo aprendizado é mesmo o fechamento. Troca-se toda a equipe da Escola e, no mesmo local onde funcionava a unidade, às vezes são criadas duas ou três novas, com diretores e Professores totalmente diferentes. A prefeitura argumenta que as novas Escolas têm tido, na maioria dos casos, melhores resultados do que as antigas.
A medida, no entanto, é polêmica. Muitas das Escolas sob o risco de fechar conseguiram evitar tal destino por pressão dos pais e Alunos. Há relatos de equipes que realmente se esforçaram para melhorar, mas não obtiveram os resultados desejados. Outra crítica à política é que ela acaba por criar um clima de tensão nas Escolas sob o risco de serem classificadas como fracassadas. Em vez de a equipe se unir, diretores e Professores entram em conflito, jogando a culpa uns nos outros.
http://oglobo.globo.com/
Fonte: O Globo
- Dou aulas há 38 anos na rede pública e o que vejo aqui é um retrato do abandono pedagógico. Não há respeito com o Professor - define Maria Teresa.
O Colégio Professor Augusto Motta foi o terceiro que menos aprovou no ano passado na capital fluminense: apenas 25,7% dos Alunos matriculados no Ensino médio passaram de ano, de acordo com os dados do Inep. No 1 ano, por exemplo, o número consegue ser ainda mais assustador: só 18,7% conseguiram a aprovação. A unidade da Penha Circular retrata bem aquele que parece ser o grande calcanhar de Aquiles da rede estadual: Escolas que funcionam à noite e nem prédio próprio têm. Ocupam instalações da prefeitura do Rio, projetadas para atender aos Alunos de Ensino fundamental.
- Hoje (quarta-feira passada), fiz metade do meu planejamento de aula no banheiro e metade no refeitório porque a gente não tem sala de Professor - completa a Docente do Professor Augusto Motta.
Das 20 piores, 19 são noturnas
Das 104 Escolas estaduais do Rio que não conseguem aprovar metade de seus Alunos do Ensino médio, 70 (67%) funcionam no período noturno em prédios que são do município. Das 20 piores no ano passado, apenas uma não se enquadra nesse perfil.
- É um problema histórico que temos na Região Metropolitana. Nessas Escolas à noite, os Alunos geralmente aparecem só em época de provas. A partir do início de setembro, de outubro, quando vai chegando a época de festas, há um esvaziamento ainda mais perigoso de jovens que saem para trabalhar e não voltam mais. É uma luta diária conseguir manter esse estudante dentro da Escola - comenta Alan Figueiredo Marques, diretor administrativo da Regional da Zona Norte do Rio, da Secretaria estadual de Educação.
Na última quarta-feira, quando o GLOBO esteve na Professor Augusto Motta, não se ouvia o burburinho típico de uma Escola cheia. Por motivos de saúde, quatro Professores haviam faltado. O turno deveria começar às 18h e terminar depois de 22h30m para suas nove turmas de Ensino médio regular. Mas poucos estudantes resistiram nas salas. Às 21h, depois que foi servido o jantar, praticamente ninguém ficou.
- São Alunos muito carentes, de situação econômica muito desfavorável. Ano passado, não tínhamos comida quente para oferecer. Essa mudança já está melhorando o índice de comparecimento. Também estamos fazendo um trabalho de visitação nas casas para saber os motivos da evasão - defende-se a diretora Maria José da Silva Bezerra Sá, que na quarta chegou à Escola pouco depois de 20h.
Na Escola que teve o pior índice de aprovação no Rio (15,2%), o Colégio Estadual Marechal Estevão Leitão de Carvalho, no Engenho da Rainha, nem o jantar serve de motivação. Como a unidade não tem uma dispensa adequada para o depósito de alimentos, não há como fornecer a merenda quente. Na última terça-feira, biscoitos e laranjas eram o que havia no cardápio. A direção da Escola espera concluir nos próximos meses uma reforma para começar a fornecer uma alimentação mais consistente.
- Aqui, a gente não tem nada de muito atrativo. Contamos apenas com a vontade do Aluno de estudar - admite a diretora da Escola, Rose Léa Silva Dias.
A unidade é nova, e os 15,2% são referentes à única turma de Ensino médio regular que o colégio possuía em 2011. A diretora questiona o número. Diz que, de 50 matriculados no início do ano, 11 (22%) foram aprovados:
- Estamos cercados por oito comunidades que não foram pacificadas. Já houve um dia, no ano passado, em que olhamos para o muro da Escola e havia aquela luz vermelha, da mira laser de uma arma. O Caveirão (blindado da PM) já ficou várias vezes aqui na porta. Nesses dias, é ainda mais difícil ter Alunos que venham - ela diz.
A diretora admite que muitos jovens só frequentam a Escola nas duas primeiras semanas ou no primeiro mês de aula:
- Há aqueles que só querem pegar o RioCard (gratuidade no transporte).
Na última terça-feira, dois ex-Alunos do 1 ano do Ensino médio em 2011 estavam na Marechal Estevão Leitão de Carvalho. Novamente, numa sala de 1 ano. Com cara de menina, Andressa Francisco da Silva, de 18 anos, conta que decidiu largar o emprego para se dedicar aos estudos. A decisão, no entanto, ainda é motivo de forte discussão familiar.
- Estou conversando com o meu marido para ver o que a gente faz. No primeiro bimestre desse ano, tive de novo notas ruins porque estava trabalhando - comenta a jovem que já é mãe de uma filha de 2 anos de idade.
Um dos Professores de Andressa é o também jovem André Magliari, de 25 anos. Lá, ele leciona português.
- É difícil porque a maioria dos Alunos trabalha. Atividades para casa, por exemplo, tenho que evitar. Mas ainda acredito que é possível - diz o Professor.
Normalistas no topo do ranking
Com 94,8%, o Colégio Estadual José Leite Lopes, na Tijuca, foi o que mais aprovou na rede estadual no ano passado. A Escola ganhou o nome de Núcleo Avançado em Educação (Nave), após o governo estabelecer uma parceria com a operadora de telefonia Oi. Em segundo lugar (94,3%), ficou o Colégio Erich Walter Heine, em Santa Cruz, construído com o apoio da siderúrgica ThyssenKrupp. Entre as de melhor desempenho (87,2% de aprovação), uma boa surpresa foi o Colégio Estadual Professor José Accioli, em Marechal Hermes. A unidade oferece o curso normal médio, de formação de Docentes. Sem grandes fórmulas mágicas, seu forte está mesmo nos profissionais.
- Acho que nosso grande diferencial é o Professor. E uma gestão participativa - destaca a Professora Kátia Gil.
Também Professora da Escola, Ana Maria Barros da Silva completa:
- Ninguém vem para cá só para cumprir horário.
O Colégio Professor José Accioli funciona em horário integral já que recentemente o Ensino normal de quatro anos foi reduzido para três. Também tem suas dificuldades, já que somente nas próximas semanas terá uma cozinha pronta para servir refeições. O improviso das quentinhas no micro-ondas, porém, não tem prejudicado o desempenho dos Alunos. Na verdade, das alunas, com poucas exceções.
- Temos alguns meninos, sim. E muito bons! - garante a diretora Maria Eduarda Marques Rodrigues.
Para tentar fazer com que casos como o do Colégio Professor José Accioli não sejam raridade, a secretaria estadual de Educação promove um processo de reformulação que passa pela mudança de gestores - foram trocados cerca de 500 diretores e adjuntos em 2011 -, além da própria reavaliação do compartilhamento de prédios com a prefeitura. Um novo contrato de parceria já foi assinado para que o uso das instalações seja permitido integralmente.
- Também estamos levantando imóveis para a criação de novas unidades. Este ano, estamos preparando uma nova metodologia de Educação de Jovens e Adultos (antigo supletivo). Queremos que seja atraente para o Aluno que estuda à noite, com qualidade e flexibilidade - afirma o subsecretário Antônio Neto.
Em Nova York, uma solução radical
O que fazer com Escolas com altos índices de fracasso Escolar? Em Nova York, a solução adotada pelo ex-prefeito Michael Bloomberg quando assumiu seu mandato em 2002 e iniciou uma ousada reforma educacional, foi radical: fechá-las.
Quase cem unidades da rede de Nova York já tiveram esse destino por terem registrado sucessivos resultados ruins em avaliações feitas pela prefeitura. Antes de decretar o fechamento, no entanto, a secretaria de Educação tenta oferecer apoio para a equipe reverter a situação.
Quando não conseguem, o destino dessas Escolas com altos índices de evasão e baixo aprendizado é mesmo o fechamento. Troca-se toda a equipe da Escola e, no mesmo local onde funcionava a unidade, às vezes são criadas duas ou três novas, com diretores e Professores totalmente diferentes. A prefeitura argumenta que as novas Escolas têm tido, na maioria dos casos, melhores resultados do que as antigas.
A medida, no entanto, é polêmica. Muitas das Escolas sob o risco de fechar conseguiram evitar tal destino por pressão dos pais e Alunos. Há relatos de equipes que realmente se esforçaram para melhorar, mas não obtiveram os resultados desejados. Outra crítica à política é que ela acaba por criar um clima de tensão nas Escolas sob o risco de serem classificadas como fracassadas. Em vez de a equipe se unir, diretores e Professores entram em conflito, jogando a culpa uns nos outros.
http://oglobo.globo.com/
Fonte: O Globo
Professor precisa abrir a cabeça, diz educador português José Pacheco
Depois de já ter revolucionado os moldes tradicionais de ensino na Escola da Ponte, o professor português José Pacheco, hoje um estudioso da realidade brasileira, aposta na mudança de mentalidade dos professores e no apoio dos governos para haver inovação em educação. Segundo o educador, é preciso que as iniciativas isoladas que ele tem visto pelo país sejam registradas, avaliadas e incentivadas para não serem perdidas. Mais que isso: os professores devem se dispor a mudar para adotar uma postura mais descentralizada, aberta à reflexão, ao diálogo e à diversidade.
Pacheco se tornou mundialmente conhecido por transformar uma escola pública portuguesa, a Ponte, com uma metodologia ousada: ele acabou com turmas, salas de aula, disciplinas e passou a ensinar conforme a motivação dos alunos. Lá, são os próprios estudantes que se organizam em grupos heterogêneos para estudar os assuntos que lhes interessam, são autônomos para pesquisar, apresentar os resultados para os colegas e, quando se sentem prontos, avisam que podem ser avaliados. O educador já está aposentado, mas sua proposta pedagógica continua sendo aplicada na Ponte e é replicada em vários países, inclusive no Brasil.
Como o senhor definiria inovação em educação?
Os arquivos das universidades estão repletos de teses sobre inovação. Sendo um termo de vasto espectro semântico, eu poderia escolher uma definição qualquer e escrever aqui, mas não farei. Prefiro dizer que, no campo teórico da educação, já tudo foi inventado e que as teses são meras reproduções de teorias… Na prática, aquilo que tem sido considerado inovação não tem sido avaliado e, quase sempre, tem consistido apenas em pequenas mudanças num modelo educacional hegemônico e obsoleto. Esse modelo, dito "tradicional”, aquele em que é suposto ser possível transmitir conhecimento faliu muito tempo atrás.
Nós, brasileiros, somos um povo aberto para inovação?
Sem dúvida que a mistura genética deu origem a um povo criativo. Acompanho algumas práticas embrionárias que provam a capacidade inventiva dos professores brasileiros. São iniciativas que partem de desejos e necessidades sentidas pelos atores locais. Essas práticas (talvez inovadoras) requerem descentralização, questionamento do modelo de relação hierárquica, negociação e contrato, respeito pela diversidade. Tais projetos poderiam constituir-se em oportunidade de mudança, mas o poder criativo não encontra acolhimento junto daqueles a quem compete gerir o sistema. Urge inovar, mas como pode acontecer inovação, se quem decide não tem consciência dessa necessidade?
O que de mais inovador o senhor tem visto pelas suas viagens pelo Brasil?
Tenho visto o trabalho discreto de muitos professores. Um trabalho que talvez mereça ser considerado inovador, mas que, por não ser apoiado pelo poder público, nem avaliado, se perde, quando os professores desistem de querer mudar as escolas, quando desistem de fazer das crianças seres mais sábios e pessoas mais felizes.
Existe mais abertura hoje para projetos que desconstroem a escola tradicional, como a Escola da Ponte ou a Educação Ativa?
Existe abertura por parte de educadores atentos à tragédia educacional brasileira. Há dados que mostram que há alunos que chegam ao ensino médio analfabetos ou incapazes de fazer uma interpretação de texto.
As escolas se converteram ao mundo digital, mas mantêm e reforçam práticas de ensino obsoletas, o improviso e o imediatismo das "novas” práticas faz prosperar o insucesso. Urge instituir novas e autonômicas formas de organização das escolas, mas também recuperar práticas antigas, sem a tentação de clonar a escola da Ponte ou adotar modismos.
Há muitos educadores com um estatuto social degradado, mal remunerados, mas que não desistem de desconstruir o modelo tradicional, de tentar melhorar, melhorando a escola. Eles sabem que o Brasil progredirá através da educação. Mas não aquela educação de que é feita a retórica de político…
Onde estão as principais barreiras para inovar? Nas escolas, entre professores, governantes, pais ou alunos?
A mudança em educação é um processo complexo e moroso: para grandes metas, pequenos passos. Urge buscar uma escola do conhecimento e abandonar um ensino meramente transmissivo, fomentar a organização do acesso à informação e a aprendizagem do uso do conhecimento.
A mudança das instituições passa pela transformação das pessoas que as mantêm. Estabeleça-se uma práxis pautada numa ética da responsabilidade e numa relação dialógica. Que se recuse ideias feitas e se escape à síndrome do pensamento único.
A formação dos professores é deficiente. As escolas são geridas numa racionalidade administrativa e burocrática. Mas o principal obstáculo é o professor, quando assume que o ato de educar é um ato solitário, quando recusa reelaborar a sua cultura pessoal e profissional, no exercício da convivencialidade.
http://porvir.org/porpessoas/para-inovar-e-preciso-pro fessor-abra-cabeca-diz-jose-pacheco/20120522
Fonte: Portal Porvir
Pacheco se tornou mundialmente conhecido por transformar uma escola pública portuguesa, a Ponte, com uma metodologia ousada: ele acabou com turmas, salas de aula, disciplinas e passou a ensinar conforme a motivação dos alunos. Lá, são os próprios estudantes que se organizam em grupos heterogêneos para estudar os assuntos que lhes interessam, são autônomos para pesquisar, apresentar os resultados para os colegas e, quando se sentem prontos, avisam que podem ser avaliados. O educador já está aposentado, mas sua proposta pedagógica continua sendo aplicada na Ponte e é replicada em vários países, inclusive no Brasil.
Como o senhor definiria inovação em educação?
Os arquivos das universidades estão repletos de teses sobre inovação. Sendo um termo de vasto espectro semântico, eu poderia escolher uma definição qualquer e escrever aqui, mas não farei. Prefiro dizer que, no campo teórico da educação, já tudo foi inventado e que as teses são meras reproduções de teorias… Na prática, aquilo que tem sido considerado inovação não tem sido avaliado e, quase sempre, tem consistido apenas em pequenas mudanças num modelo educacional hegemônico e obsoleto. Esse modelo, dito "tradicional”, aquele em que é suposto ser possível transmitir conhecimento faliu muito tempo atrás.
Nós, brasileiros, somos um povo aberto para inovação?
Sem dúvida que a mistura genética deu origem a um povo criativo. Acompanho algumas práticas embrionárias que provam a capacidade inventiva dos professores brasileiros. São iniciativas que partem de desejos e necessidades sentidas pelos atores locais. Essas práticas (talvez inovadoras) requerem descentralização, questionamento do modelo de relação hierárquica, negociação e contrato, respeito pela diversidade. Tais projetos poderiam constituir-se em oportunidade de mudança, mas o poder criativo não encontra acolhimento junto daqueles a quem compete gerir o sistema. Urge inovar, mas como pode acontecer inovação, se quem decide não tem consciência dessa necessidade?
O que de mais inovador o senhor tem visto pelas suas viagens pelo Brasil?
Tenho visto o trabalho discreto de muitos professores. Um trabalho que talvez mereça ser considerado inovador, mas que, por não ser apoiado pelo poder público, nem avaliado, se perde, quando os professores desistem de querer mudar as escolas, quando desistem de fazer das crianças seres mais sábios e pessoas mais felizes.
Existe mais abertura hoje para projetos que desconstroem a escola tradicional, como a Escola da Ponte ou a Educação Ativa?
Existe abertura por parte de educadores atentos à tragédia educacional brasileira. Há dados que mostram que há alunos que chegam ao ensino médio analfabetos ou incapazes de fazer uma interpretação de texto.
As escolas se converteram ao mundo digital, mas mantêm e reforçam práticas de ensino obsoletas, o improviso e o imediatismo das "novas” práticas faz prosperar o insucesso. Urge instituir novas e autonômicas formas de organização das escolas, mas também recuperar práticas antigas, sem a tentação de clonar a escola da Ponte ou adotar modismos.
Há muitos educadores com um estatuto social degradado, mal remunerados, mas que não desistem de desconstruir o modelo tradicional, de tentar melhorar, melhorando a escola. Eles sabem que o Brasil progredirá através da educação. Mas não aquela educação de que é feita a retórica de político…
Onde estão as principais barreiras para inovar? Nas escolas, entre professores, governantes, pais ou alunos?
A mudança em educação é um processo complexo e moroso: para grandes metas, pequenos passos. Urge buscar uma escola do conhecimento e abandonar um ensino meramente transmissivo, fomentar a organização do acesso à informação e a aprendizagem do uso do conhecimento.
A mudança das instituições passa pela transformação das pessoas que as mantêm. Estabeleça-se uma práxis pautada numa ética da responsabilidade e numa relação dialógica. Que se recuse ideias feitas e se escape à síndrome do pensamento único.
A formação dos professores é deficiente. As escolas são geridas numa racionalidade administrativa e burocrática. Mas o principal obstáculo é o professor, quando assume que o ato de educar é um ato solitário, quando recusa reelaborar a sua cultura pessoal e profissional, no exercício da convivencialidade.
http://porvir.org/porpessoas/para-inovar-e-preciso-pro fessor-abra-cabeca-diz-jose-pacheco/20120522
Fonte: Portal Porvir
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